
O projeto Educandow, fruto de uma parceria entre a UFBA, através do Programa Onda Digital (POD), e a empresa DOW Brasil, marcou a volta às suas atividades na escola do Serviço Social da Indústria (Sesi), em Candeias, com uma palestra do psicólogo e Diretor de Prevenção da SaferNet? Brasil, Rodrigo Nejm, intitulada "O Uso Ético e Seguro da Internet", realizada na última quarta-feira, 1. Direcionada aos educadores da unidade, o objetivo do evento, que teve o apoio da Oi Futuro (instituto social da empresa de telecomunicações Oi), foi expor os perigos e potencialidades do uso da web pelas crianças e adolescentes, dentro e fora da escola, além de dar dicas de como utilizar a rede de forma segura e consciente, principalmente em sua interface com o ambiente escolar.
Rodrigo Nejm destacou o fato de a internet se constituir como a mais nova praça pública da contemporaneidade, onde tudo o que postamos pode ser visto potencialmente por mais de 2 bilhões de frequentadores. Nesse cenário de extrema exposição de detalhes de nossas vidas, desde simples postagens em forma de texto até fotos íntimas, a web deve ser vista com cautela, principalmente no que diz respeito ao seu uso pelos mais jovens, mas sem nunca chegar à sua proibição, seja na escola ou em casa.
Apesar das inúmeras formas de violação dos direitos humanos a que os internautas estão expostos, especialmente as crianças, como o aliciamento de menores de idade por adultos inescrupulosos, pornografia infantil e cyberbullying, para Nejm, a web segue mantendo o seu brilho como um espaço único de obtenção de novos conhecimentos e de interação. "Nem o crime mais bárbaro que acontece na internet pode tirar seu mérito como um espaço fantástico de aprendizado, oportunidades e muita riqueza, para todas as idades e todos os contextos, seja trabalho, lazer, brincadeira ou família", defende.
Com a incorporação tão intensa e rápida do acesso à internet às nossas vidas, seja para uma simples pesquisa escolar, na busca de informações para preparar um curso, ou ainda com a recente incorporação às nossas rotinas de vários acessos diários às redes sociais, como o Facebook, o fato é que a internet se incorporou ao nosso dia a dia de forma irreversível. Para aproveitar todo o seu potencial no ambiente escolar, Nejm prega que os educadores corram atrás para incluir as novas tecnologias nas escolas. "Mesmo com o professor que é um pouco mais velho e que, quando teve a sua formação não tinha ainda a informática, mas, também, na sala de aula, a gente vai ter que adaptar toda escola para incorporar essas novas tecnologias: internet, computadores, celulares", frisou.
Com tantos usuários ao redor do mundo, muitas pessoas têm a impressão de que a rede mundial de computadores é o ambiente onde impera o anonimato e, por isso, ninguém é punido. A quantidade de crimes perpetrados pela web é imensa - de roubos de senhas bancárias, invasão de sites e perfis de redes sociais, à pirataria de músicas e filmes - perpetuando a sensação de que a lei que vigora nas ruas não se aplica ao mundo virtual.
Em sua fala, Nejm vai de encontro a essa ideia. "Ainda vemos a internet como uma terra de ninguém, como uma terra sem lei onde ninguém é punido. Ela é um espaço virtual público onde temos de ter noção que nela valem as mesmas leis que valem no espaço físico real, como na nossa rua, no nosso bairro", desconstrói.
A adoção das recentes tecnologias digitais na dinâmica pedagógica das escolas, defendida por Rodrigo Nejm, encontra consonância no projeto Educandow. Partindo da implantação de uma rede social online, denominada Tecciência, no ambiente educacional da unidade do Sesi - Candeias, seu objetivo é associar a possibilidade de interação e compartilhamento de arquivos (áudio, vídeo, texto), proporcionada pelas redes sociais, ao processo de ensino-aprendizagem.
Com a proposta, estudantes e professores saem ganhando, pois têm em mãos mais uma possibilidade de interação, mesmo fora da escola, além de encontrarem no Tecciência um repositório de conteúdo escolar de qualidade, preparado pelos próprios professores como complemento ao conteúdo ministrado em sala de aula.
Confira abaixo entrevista especial feita com Rodrigo Nejm:
Como você acha que o governo federal pode implementar políticas públicas que fomentem uma consciência ética e segura acerca do uso da web, principalmente nas escolas públicas?
Em termos de política pública federal, esse é um tema muito transversal. Como a gente tem um desafio quando fala em segurança na internet, essa segurança envolve várias áreas, desde uma área mais técnica, até a área de educação mas, também, as políticas públicas de direitos humanos no Brasil. A gente sabe que é uma política transversal. O que a gente tem apostado é que o Brasil implemente o que está previsto na constituição e os seus planos que já existem, como, por exemplo, o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, que possa ser conectado às políticas, por exemplo, do Plano Nacional de Banda Larga. São dois programas que já existem, dois projetos, com documentos previstos, mas que precisam se conectar. O Brasil vive um momento especial de inclusão digital com banda larga nas escolas, banda larga nacional, tablet nas escolas, mas é importante que esse acesso ao equipamento venha junto com formações e uma promoção do uso ético e com respeito aos direitos humanos. Então, acho que o grande desafio das políticas que já existem é conectar o âmbito técnico da infraestrutura com a questão dos direitos humanos que estão previstos.
Dado o encontro cada vez mais precoce com o mundo digital por parte das crianças, não seria hora de haver uma disciplina específica sobre tecnologias da informação e da comunicação nas escolas brasileiras, como uma disciplina de caráter obrigatório?
Esse é um tema delicado. Há muitos argumentos contra a formação de disciplinas específicas nesse ponto pelo fato de serem temas transversais. Então, há muita crítica em incluir novas disciplinas no currículo porquê há uma concepção de educação atual que valoriza mais uma formação generalista e uma formação mais abrangente do que formações específicas, pontuais. Então, esse tema pode ser muito bem trabalhado na escola independente de disciplinas. Sendo um tema transversal pode ser trabalhado na disciplina de Matemática, de Línguas, de Idiomas. Pode ser trabalhado na disciplina de Biologia. Enfim, há como trabalhar e por isso que a SaferNet? desenvolveu materiais pedagógicos pra isso, pra diferentes disciplinas se apropriarem do tema da internet partindo da questão do uso seguro. Incutir o seu conteúdo curricular, de cada disciplina, mas usando como pano de fundo uma discussão mais ampla que considera direitos humanos na internet.
Como você classificaria o usuário brasileiro de redes sociais? Ele se preocupa com sua própria segurança na internet? Ele lê a política de privacidade dos sites de relacionamentos e redes sociais?
Olha, a gente acompanha pelas pesquisas oficiais do Comitê Gestor da Internet (CGI), e algumas outras pesquisas, e vê que ainda a maior preocupação do internauta brasileiro é com relação a vírus ou problemas em relações bancárias. O que significa que nem todo usuário tá tão preocupado com outros tipos de situações de perigo que ele pode vir a sofrer. E, em relação aos tema de privacidade, a gente sabe, eu não tenho o dado oficial sobre isso, mas a gente sabe que pouquíssimos usuários leem na íntegra os termos de uso e simplesmente aceitam. Especialmente quando a gente considera crianças que usam as redes sociais, sendo que elas, a princípio, nos próprios termos de uso, são previstas só para maiores de 13 anos. Então, há uma ignorância em geral em relação aos termos de uso.
Como você vê uma possível obrigatoriedade do registro da identificação dos usuários de lan houses? Essa seria a melhor opção para a construção de um uso seguro da web?
Olha, já existe em alguns estados. Vários estados têm essa lei, mas a lei não é implementada. Ela não é nem regulamentada e nem implementada e muito menos fiscalizada. Então, é o tipo da lei que existe mas ninguém respeita. Então, isso é uma evidência de que esse tipo de lei não resolve a situação do risco do uso da lan house. O cadastro na lan house, por um lado, é importante pra manter a segurança. Caso aconteça algum crime naquele espaço o dono da lan house pode se proteger e identificar quem foi que cometeu o crime naquele dia, naquela hora, naquela lan house e ajudar as autoridades policias. Mas, ao mesmo tempo, tem argumentos que provam que esse tipo de cadastro fere o direito à privacidade do usuário que queira simplesmente acessar de forma anônima a internet para um uso particular. E, ao mesmo tempo, a gente sabe que cada vez mais a gente tem que fazer cadastros em todos os lugares. Por exemplo, um prédio comercial, em muitos lugares, você tem que tirar foto, fazer cópia de documento e isso também é uma invasão de privacidade. Então, acho que o cadastro pode ser bem gerido de forma que não prejudique o usuário e ao mesmo tempo ajude as autoridades. O problema hoje é que já temos as leis mas elas não são respeitadas. A gente tem que arrumar uma forma de que a lei seja respeitada e uma lei que seja adequada para o usuário final.
A que você atribui a necessidade contemporânea de os internautas divulgarem detalhes íntimos de suas vidas nas redes sociais? Até que ponto esse uso se reflete num uso inseguro da rede?
Quando crianças e adolescentes fazem esse tipo de publicação sem dúvida nenhuma é um risco, porquê essa informação fica pública para sempre. Quando essas crianças forem pais e mães, os seus filhos vão ver os seus pais transando na internet, sem roupa na internet, e é no mínimo constrangedor num futuro próximo. Então, isso é difícil, é um tema complexo, mas a gente sabe que a gente vive numa sociedade muito consumista, individualista e que cultua celebridades. Nós, adultos, cultuamos as celebridades e uma sociedade imediatista. A gente que satisfazer os nossos desejos na hora, aqui e agora. E, naturalmente, as crianças, com tanta influência da publicidade e dos meios de comunicação que cultuam esse tipo de sociedade, refletem isso em seus comportamentos. Então, crianças fazendo sexo ou simulando cenas de sexo, ou a erotização precoce da infância, isso é retrato da sociedade adulta, digamos assim, que valoriza esse tipo de celebridade e a criança reproduz isso na internet como um resultado da erotização que recebeu. Então é difícil avaliar e julgar, mas é fruto da sociedade que a gente tem hoje.
O aumento dos chamados cibercrimes está diretamente à proliferação das redes sociais?
Não, não exatamente à rede social. Hoje é a rede social do momento, mas antes eram as músicas, num futuro próximo pode ser outra coisa. O aumento do cibercrime, na nossa opinião, tem duas grandes causas. A primeira, naturalmente, conforme aumenta do número de usuários tende a aumentar o número de situações de crime. É igual, conforme o maior volume de pessoas concentradas em uma cidade, maior a chance de ter problemas em relação ao espaço público daquela cidade. Mas, ao mesmo tempo, também porquê o brasileiro ainda não tem um acesso consolidado a informações educativas para prevenir crimes na internet. Porquê a prevenção aos crimes na internet ainda é muito rasa no Brasil e não é consolidada nas políticas públicas e mesmo ainda poucas empresas têm uma responsabilidade nesse ponto.
Existem delegacias especializadas em crimes eletrônicos em número suficiente nos municípios brasileiros?
Não. A gente tem no site da SaferNet? uma lista. São, no momento, oito delegacias especializadas no Brasil. Ainda é muito abaixo. Há uma tendência de que a delegacia comum incorpore esses crimes. Isso é muito bom. Mas o fato é que ainda as polícias não estão se especializando o suficiente para atender à demanda do cidadão na ponta. Isso é um gargalo urgente que o Brasil precisa resolver.
Como podemos desenvolver um uso ético da internet dado o avassalador número de compartilhamentos e downloads de arquivos protegidos por direitos autorais, como filmes e músicas, por exemplo?
Olha, essa questão de filmes e músicas escapa da nossa área de trabalho, mas a gente sabe que, com os crimes em geral na internet, o importante é que haja polícias especializadas e que o internauta seja consciente. Porquê não adianta ter lei, ter polícia, se o usuário na ponta final não tem consciência e não tem respeito às leis. Então, a gente acredita que é possível combater cibercrime unindo os esforços das empresas de tecnologia, da sociedade civil e das políticas públicas. Esse projeto, por exemplo, que a gente, hoje, tem feito algumas oficinas como essa aqui em Salvador e na região, são fruto de um apoio que a gente tem da Oi Futuro, que é um instituto social da Oi, que tem apoiado projetos dessa natureza em vários lugares do país. Então, não tem uma solução mágica. Empresas têm que financiar programas de educação. Políticas públicas têm que implementar programas de educação. Políticas públicas têm que ter formação de policiais federais, militares e civis. Tem que ser criada toda uma estrutura para o país dar conta desse universo digital que cada vez cresce mais no Brasil.
Você acha que a ética no uso da internet pelos brasileiros pode refletir o modo como as pessoas enxergam e sentem a sociedade brasileira, a exemplo da classe política?
Bem, eu acho que a internet é um reflexo da sociedade. A gente tem no país uma internet mais ou menos segura, mais ou menos ética, mais ou menos com qualidade dependendo do uso que a gente faz dela. Então, da mesma forma que os nossos políticos fazem um péssimo uso do espaço que ocupam, a gente tem que ter um processo educativo para que os internautas que ocupem a internet brasileira reflitam uma sociedade ética, uma sociedade justa, uma sociedade culta e uma sociedade que tenha o que mostrar pro resto do mundo. Até porquê a internet é global. E o Brasil tem exemplos incríveis de qualidade na cultura digital. O Brasil exporta não só cultura digital, mas exporta também desenvolvimento de tecnologia. Na própria SaferNet? a gente desenvolve software livre totalmente brasileiro, com profissionais brasileiros, e que são usados em alguns países do mundo. Então, o Brasil tem, sim, como exportar muita coisa boa na internet.
FONTE: Programa Onda Digital
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