Celular vira ferramenta de bullying
Com equipamento, agressão deixa sala de aula e chega ao mundo virtual
Domingo, 28 de Fevereiro de 2010 | Versão Impressa Jornal O Estado de São Paulo
Sem orientação, o aparelho celular na mão de crianças e adolescentes se transformou em uma ferramenta para o cyberbullying - preconceito, discriminação e violência praticados entre colegas que, com a tecnologia, deixam as salas de aula e ganham espaço na internet.
Com o auxílio de fotos e vídeos, o bullying chega ao mundo virtual e real. Segundo pesquisa da Universidade de Navarra, na Espanha, em parceria com a Fundação Telefônica, 8,4% dos 4.205 estudantes brasileiros de 6 a 18 anos afirmaram, em 2008, que já haviam usado o celular para ofender alguém. Como o cyberbullying leva as agressões para o mundo virtual, a exposição de quem é ridicularizado é imensurável.
"Na internet, os agressores são anônimos e um maior número de pessoas tem acesso à provocação", diz Betina von Staa, coordenadora de pesquisas da divisão de tecnologia educacional da Positivo Informática. Além disso, o conteúdo nocivo é quase impossível de ser apagado. "Dependendo do material, conseguimos limpar cerca de 95% das páginas, mas não a totalidade", afirma o advogado especializado em direito eletrônico Renato Opice Blum.
De acordo com o advogado Alexandre Fidalgo, especializado em comunicação, o Brasil não tem legislação específica para crimes virtuais, mas os valores das indenizações podem ser maiores do que o bullying por causa da rapidez e amplitude das informações.
PROTEÇÃO
Dialogar com os filhos é a melhor forma de evitar que eles se tornem tanto agressores como vítimas do bullying. Como as crianças costumam acessar a internet sozinhas, entram e saem de situações difíceis sem a chamar um adulto. Por isso, a orientação é fundamental.
Conhecer as tecnologias utilizadas pelas crianças também é um passo importante. Para Mila Gonçalves, coordenadora de planejamento da Educarede, ligada à Fundação Telefônica, a discussão deve estar presente em casa. "O pai não é obrigado a saber como funcionam as tecnologias antes de dar um aparelho de última geração para o filho. Mas pode gastar um pouco do seu tempo para aprender com a criança." No Brasil, segundo o estudo de Navarra, 79,4% dos alunos de 10 a 18 anos têm celular. Entre as crianças de 6 a 9 anos, o índice é de 50,5%.
RESPONSABILIDADE
Pais de menores de idade que postam na internet vídeos ou fotos de colegas sendo ridicularizados podem ser responsabilizados criminalmente. As crianças também respondem pela agressão, considerada ato infracional pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Como punição, podem ter de cumprir medidas socioeducativas. O mesmo vale para quem cria sites ou comunidades com esse fim. Se a agressão partir de um computador da escola, a instituição também pode responder pelo crime se não fizer nada a respeito.
Escolas têm de promover discussão do tema
As escolas devem promover discussões com seus alunos sobre o bullying para evitar essa forma de agressão. A orientação, que ocorre de maneira informal em escolas privadas, é quase inexistente na rede pública. Na tentativa de reverter a situação, um decreto publicado em 11 de fevereiro determina que as escolas municipais de São Paulo incluam em seus projetos pedagógicos medidas de conscientização, prevenção e combate ao bullying escolar. Nesse contexto, a violência é tratada como consequência de situações que favorecem a exclusão social e o preconceito. A responsável pela diretoria de orientação técnica da Secretaria Municipal de Educação, Regina Lico Suzuki, explica que o bullying é um sintoma de uma situação vulnerável de convívio na escola. “Trabalhamos com projetos pedagógicos que criam vínculos e previnem o bullying.” Em escolas particulares, como o Colégio Santa Maria, na zona sul de São Paulo, situações de agressão são tratadas junto à coordenação. “A maioria dos casos começa como brincadeira. Mostramos ao aluno que começou a agressão como o outro se sente mal por isso”, explica Armando José Capeletto, orientador do 8.º ano do ensino fundamental do colégio. Para a psicóloga Mara Raboni, da Unifesp, é importante especificar na orientação aos pais e, principalmente, aos professores o que é o bullying. “A violência entre as crianças nem sempre vem como preconceito. O bullying é o limite entre a brincadeira e o estresse.”
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100228/not_imp517278,0.php


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